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Patagônia, o fim do mundo cada vez mais próximo
Cada vez mais brasileiros programam suas férias de verão no extremo sul do continente fugindo das praias lotadas em busca de paisagens diferentes, ar puro, clima temperado e espaço, muito espaço. O destino da vez é a Patagônia, região imensa dividida entre dois países, com uma cordilheira no meio e enorme diversidade geográfica: do deserto aos bosques sempre verdes, das planícies aos picos nevados e geleiras, do mar aos lagos e fiordes. Verdadeira aula de geografia e desafio ao mais experiente cartógrafo. Se no dizer do poeta, o Chile é uma louca geografia, quando se trata da 11ª região, loucura é pouco. Como comprova Termas de Puyuhuapi. Entre ônibus, van e lancha (os dez minutos finais), são quase seis horas de travessia partindo de Coihaique, a capital. O caminho é por uma estrada que por si só já vale a viagem: rios, vales, picos nevados... A cada dez minutos o cenário muda, mantendo uma única característica comum: a beleza das paisagens. Depois de cada curva parece que estamos entrando em um outro país tal a diversidade de microclimas. Este trecho da Carretera Austral, que de auto-estrada só tem o nome, merece figurar entre as rodovias mais bonitas do mundo, ao lado, entre outras, da Costiera Amalfitana e da US 1.
Às margens da Bahia Dorita, o Termas de Puyuhuapi Hotel & Spa (Bahía Dorita s/nº, 56-67/32-5103, patagoniaconnection.com ; diárias de € 74 a € 278) fica exatamente no meio disso tudo, ou seja, no meio do nada, quase escondido na vegetação luxuriante. As acomodações são simples, mas aconchegantes. A comida, honesta. Mas o melhor são os passeios pela região organizados pelo hotel: descobrir a selva fria, conhecer o chucao (pássaro que não voa e, curioso, chega perto de nossos pés), passear de bicicleta ou caiaque e fazer trekking no Parque Nacional Queulat para subir ao Vestisquero Colgante. Mas o melhor de tudo é entrar nas três piscinas de águas correntes, que variam entre 32ºC e 42ºC, para depois mergulhar no Pacífi co gelado. Detalhe: as piscinas ficam abertas 24 horas por dia e sempre tem gente disposta a enfrentar o desafio mesmo na madrugada (e sair de lá superfeliz, enrolado nos roupões, por sinal a roupa oficial do hotel).
Depois de alguns dias de caminhadas e banhos, é hora de tomar o Catamaran Patagônia Express (56-2/225-6489, patagonia-connection.com ), que sai de frente do hotel com destino à Laguna e Vestisquero San Rafael, um dos maiores e mais impressionantes glaciares do mundo. Navega-se o dia todo por entre ilhas, fiordes e braços de mar. Lá embarcamos em botes de 12 pessoas para um passeio de mais de duas horas de uma experiência única: ir bem perto dele, descobrir todos os tons possíveis de azul e branco, ouvir seus ruídos, seus movimentos (se despedaça criando icebergs que ganham vida própria). A cada movimento surgem ondas de até 6 metros , tornando a viagem (aventura é a palavra mais apropriada) mais emocionante. De lambuja, chuva e sol, às vezes as duas coisa juntas...
Enfim, chegamos de volta ao catamarã, exaustos e felizes, prontos para o tão esperado uísque on the rocks, com o gelo glaciar. Triste é saber o quanto o San Rafael recuou nestes últimos tempos por conta do aquecimento global. A sensação de impotência é o que fica quando vemos uma marca, do ano 2000, gravada na pedra já distante do gelo: é a testemunha silenciosa do nível do glaciar naquele ano. O mundo agoniza, não é preciso ler no jornal. É visível bem na nossa frente. |